Nas últimas semanas, recebemos dezenas de relatos de alunos que ficaram surpresos — e frustrados — com suas notas na redação do Enem 2025. Candidatos que vinham tirando consistentemente acima de 900 pontos em edições anteriores viram suas notas despencarem para 700, 740, às vezes menos. A pergunta que todos faziam era a mesma: “O que aconteceu?”
Agora, uma reportagem exclusiva do G1 finalmente trouxe respostas. O portal teve acesso a documentos sigilosos, cópias de e-mails internos e depoimentos de corretores que comprovam o que muitos suspeitavam: houve sim mudanças nos critérios de correção da redação do Enem 2025 — mudanças que não foram comunicadas previamente aos candidatos.

Os relatos que recebemos
Antes mesmo da reportagem do G1 vir a público, já víamos nos nossos canais e redes sociais uma avalanche de depoimentos preocupantes. Alunos dedicados, que estudaram o ano inteiro, que treinaram dezenas de redações, que conheciam a estrutura do texto dissertativo-argumentativo de cor — todos relatando quedas inexplicáveis.
Um padrão se repetia: candidatos que em 2023 ou 2024 tiraram 900, 920, 940 pontos, de repente apareciam com 720, 740, 760 em 2025. Não fazia sentido. Esses alunos não desaprenderam a escrever. Não ficaram nervosos a ponto de comprometer tanto o desempenho. Algo havia mudado — e agora sabemos o quê.
O que o G1 revelou: três mudanças que afetaram as notas
A investigação do G1 identificou três alterações significativas na forma como as redações foram corrigidas em 2025. Todas elas foram suficientes para impactar drasticamente as notas de milhares de candidatos.
1. Competência 4 — Avaliação subjetiva dos elementos coesivos
Em edições anteriores, a avaliação dos conectivos — expressões como “dessa forma”, “consequentemente”, “portanto”, “além disso” — seguia uma lógica mais objetiva e matemática. Havia uma contagem precisa desses termos para determinar a nota do candidato nessa competência.
Em 2025, isso mudou. A contagem foi substituída por uma classificação subjetiva, onde cabia ao corretor classificar a presença dos elementos coesivos como “pontual”, “regular”, “constante” ou “expressiva”. O problema? Cada corretor passou a interpretar esses conceitos de forma diferente.
Como relatou um corretor ao G1: “A gente perdeu parâmetro. Era um outro direcionamento antes. No fim das contas, cada um levou em conta uma orientação.”
Ou seja: a mesma redação poderia receber notas completamente diferentes dependendo de quem a corrigisse. Isso é grave.
2. Competência 5 — Punição triplicada para quem esqueceu a “ação”
Na proposta de intervenção, o candidato precisa apresentar cinco elementos: ação (o que será feito), agente (quem fará), finalidade (com que objetivo), meio (de que forma) e detalhamento.
Em anos anteriores, esquecer qualquer um desses elementos resultava em uma penalidade de 40 pontos. Justo e proporcional.
Mas em 2025, uma nota de rodapé nos documentos de orientação trouxe uma mudança drástica: quem esquecesse especificamente o elemento “ação” passaria a perder 120 pontos — três vezes mais que antes.
Muitos candidatos sequer sabiam dessa alteração. Alguns podem ter formulado a ação de uma forma que pareceu “finalidade” aos olhos do corretor — e foram severamente punidos por isso.

3. Repertório sociocultural — Punição em dobro
Esta foi, segundo os corretores ouvidos pelo G1, a principal responsável pelas quedas expressivas nas notas.
A grade de correção de 2025 não trazia mudanças explícitas sobre o repertório sociocultural — as citações de autores, livros, filmes e dados que os candidatos usam para embasar seus argumentos. O combate aos “repertórios de bolso” (citações genéricas e forçadas) já estava previsto na Cartilha do Participante desde setembro.
Porém, um documento extra foi enviado aos corretores depois dos treinamentos presenciais. Esse documento estabelecia que a competência 2 deveria “dialogar” com a competência 3. Na prática, isso significou que repertórios considerados fracos ou mal aplicados passaram a ser punidos em duas competências, não mais em uma.
Um erro que antes custava pontos em uma única competência agora custava o dobro. E os candidatos não foram avisados.
O Inep nega, mas os documentos provam
Questionado pelo G1, o Inep — órgão do Ministério da Educação responsável pelo Enem — negou qualquer alteração nos critérios. O presidente do instituto, Manuel Palacios, afirmou que “são os mesmos corretores e a mesma instituição aplicadora” e que “a equipe de capacitação usou os mesmos critérios”.
Mas os documentos obtidos pela reportagem contam uma história diferente. Há registros claros de mudanças nas orientações, notas de rodapé com novas regras e documentos enviados após os treinamentos que alteraram a forma de avaliação.
O Inep também destacou que as provas são corrigidas por ao menos dois avaliadores, com previsão de terceira correção em caso de divergência, “garantindo equilíbrio, justiça e tratamento isonômico”. Mas se os próprios critérios mudaram, de que adianta ter múltiplos corretores seguindo regras que os candidatos desconheciam?
Por que isso é tão grave?
O Enem é a principal porta de entrada para o ensino superior no Brasil. Milhões de jovens dependem dessa prova para conquistar uma vaga em universidades públicas pelo Sisu, em instituições privadas pelo Prouni, ou para financiar seus estudos pelo Fies.

Quando as regras mudam sem aviso, cria-se uma competição desigual. Quem prestou o Enem em 2024 e usou a nota para o Sisu 2025 foi avaliado por critérios mais brandos. Quem fez a prova em 2025, achando que seria avaliado da mesma forma, foi surpreendido por um rigor maior.
Como bem resumiu um dos candidatos entrevistados pelo G1: “Desisti do Sisu depois que vi minha nota na redação cair de mais de 900 para 700 e pouco. Não sabia de nenhuma dessas mudanças. Se eu dependesse só dessa prova, teria perdido mais um ano inteiro de preparo.”
Outro candidato, que passou de 920 (2023) e 940 (2024) para apenas 720 em 2025, foi certeiro: “Isso não representa uma evolução negativa, e sim uma instabilidade no processo avaliativo.”
Condições precárias de trabalho dos corretores
A reportagem do G1 também jogou luz sobre as condições de trabalho dos profissionais que corrigem as redações. Os números são alarmantes:
- R$ 3 por redação corrigida — uma remuneração extremamente baixa
- Até 200 textos corrigidos em um único dia — uma carga que compromete a qualidade da avaliação
- Instabilidades no sistema e dificuldades de comunicação com supervisores
- Ruídos de comunicação durante os treinamentos — corretores de salas diferentes receberam orientações conflitantes
Uma corretora relatou ao G1: “Nos intervalos dos treinamentos presenciais, a gente falava: ‘ah, vai mudar isso’. A outra pessoa, de outra sala, respondia: ‘ué, minha supervisora não falou isso’. Foram muitos ruídos de comunicação.”
Essa precarização afasta profissionais qualificados e compromete a confiabilidade de uma prova que decide o futuro de milhões de brasileiros.
O que fazer agora?
Se você foi um dos candidatos prejudicados, saiba que você não está sozinho. A revelação do G1 confirma que houve problemas reais no processo de correção — não foi “nervosismo”, não foi “um dia ruim”, não foi “desaprender a escrever”.
Fique atento aos desdobramentos dessa reportagem. É possível que haja questionamentos formais ao Inep e até ações judiciais coletivas. Guarde sua redação digitalizada (disponível na Página do Participante) e documente sua trajetória de notas em edições anteriores.
E para quem vai prestar o Enem 2026: a lição é clara. Estude a Cartilha do Participante com atenção redobrada, treine redações com feedback de professores experientes, e esteja preparado para possíveis mudanças — mesmo aquelas que não forem comunicadas com antecedência.
Fonte: G1 Educação — Documentos mostram mudanças na correção da redação do Enem 2025