Estudantes Indígenas com Deficiência Enfrentam Desafios Extras para Permanecer nas Universidades Brasileiras
O acesso ao ensino superior no Brasil avançou significativamente nas últimas décadas, especialmente com políticas de cotas que abriram portas para grupos historicamente excluídos. No entanto, um grupo específico ainda enfrenta obstáculos quase intransponíveis: os estudantes indígenas com deficiência. Uma reportagem recente da Folha de S. Paulo revelou as barreiras extras que esses jovens enfrentam para permanecer na universidade, incluindo falta de acessibilidade, apoio insuficiente e preconceito estrutural.
A Dupla Jornada: Ser Indígena e Ter Deficiência
Imagine sair do seu território, deixar sua comunidade, sua cultura, seus costumes, e enfrentar um ambiente acadêmico completamente diferente de tudo o que você conhece. Agora imagine fazer tudo isso sendo uma pessoa com deficiência, sem o suporte adequado que deveria ser garantido por lei. Essa é a realidade de centenas de estudantes brasileiros.
Ynathari Ampak, indígena xavante e pataxó, diagnosticada com transtorno do espectro autista e dislexia, viveu essa experiência na pele. Em 2019, ela ingressou no curso de biologia da Unimontes (Universidade Estadual de Montes Claros) por meio de cotas para indígenas. Mesmo tirando boas notas, Ynathari enfrentou obstáculos que quase a fizeram desistir da graduação.
“É importante mostrar que nós existimos e que a educação indígena é diferente por conta da própria cultura. Para quem sai do seu território e vem para a universidade, é muito diferente. Isso impacta o indígena sem deficiência, imagine o com deficiência”, afirmou Ynathari em entrevista.
O momento mais difícil veio quando um professor disse que havia se formado para dar aula para pessoas “normais”, e não para alguém como ela. Esse tipo de preconceito explícito, embora chocante, não é incomum nas instituições de ensino superior brasileiras. Felizmente, Ynathari encontrou apoio em outra professora que adaptou as aulas às suas necessidades, permitindo que ela concluísse a graduação em 2024, aos 40 anos.
Quando a Universidade Não Está Preparada
O caso de Kanhu Haka, 28 anos, indígena da etnia kamayurá, ilustra como a falta de estrutura pode forçar estudantes promissores a abandonar seus sonhos. Kanhu tem distrofia muscular de Duchenne, uma condição genética que causa perda progressiva dos movimentos e requer cadeira de rodas para locomoção.
Em 2022, ela ingressou no curso de ciência política da UnB (Universidade de Brasília) por meio de um processo seletivo especial para candidatos indígenas. No entanto, as condições de acessibilidade eram inadequadas. Faltava uma mesa maior para acomodar sua cadeira de rodas e um monitor para auxiliá-la nas aulas.
A situação de Kanhu expõe as falhas do sistema de forma clara. Ela mora a 50 minutos da UnB e inicialmente fazia o deslocamento de ônibus. Depois, passou a usar veículo particular, pago com a bolsa permanência que recebia da universidade. “Usava o recurso só para isso. Mas, no carro, eu não podia levar minha cadeira automatizada, porque ela é grande, precisava tirar as baterias e desmontá-la. Para facilitar, levava uma cadeira mais simples, mas aí precisava que alguém ajudasse a empurrar. E não tive esse apoio do setor de acessibilidade.”
A solicitação formal de um monitor foi feita, e a resposta positiva veio por e-mail em outubro de 2024. “Mas ele nunca chegou”, lamenta Kanhu. Sem conseguir continuar, ela agora considera ingressar na modalidade a distância. “Cursar uma universidade era um sonho. Vou continuar tentando.”
Os Números que Revelam uma Realidade Oculta
Segundo dados do Censo do Ensino Superior de 2024, divulgados pelo Inep, existem 534 indígenas com deficiência matriculados no ensino superior brasileiro. Desses, 203 estão em instituições públicas (167 em federais, 33 em estaduais e 3 em municipais) e 331 em instituições privadas.
No entanto, especialistas alertam que esse número pode estar muito abaixo da realidade. A professora Chantal Medaets, da Unicamp, que coordena o Obiques (Observatório de Indígenas e Quilombolas no Ensino Superior), destaca que a coleta de dados ainda apresenta falhas significativas.
“Para o conjunto de estudantes indígenas, esses números variam. Como as instituições também são responsáveis por repassar esses dados, a qualidade dessa informação é muito variável”, explica a docente. “A meu ver, o maior problema é a subnotificação de dados de estudantes indígenas de modo geral. Precisamos ter esses dados para entender melhor como o universo dos estudantes indígenas se distribui, o que inclui a questão da deficiência.”
Um exemplo dessa subnotificação: apenas duas universidades federais da região Norte — a Ufam (Universidade Federal do Amazonas) e a UFT (Universidade Federal do Tocantins) — somam 108 indígenas com deficiência matriculados, segundo dados fornecidos pelas próprias instituições.
O Desafio da Identificação Tardia
Maria Santana, reitora da UFT, explica que muitos estudantes indígenas com deficiência só são identificados após o ingresso na universidade. “Temos uma equipe multidisciplinar de acessibilidade em cada campus. Muitas vezes são alunos que ainda não possuem laudo, que não informam a deficiência na matrícula ou que nem entram pela cota. Quando eles já estão aqui, é que a equipe identifica a deficiência.”
Essa identificação tardia representa um desafio adicional. Sem o diagnóstico formal no momento da matrícula, muitos estudantes não conseguem acessar os recursos de acessibilidade disponíveis desde o início do curso.
O Que o Governo Está Fazendo?
O MEC (Ministério da Educação) informou que atua em três frentes principais para garantir a permanência de estudantes indígenas com deficiência no ensino superior:
1. Programa Incluir: Financia núcleos de acessibilidade nas universidades federais, que deveriam oferecer suporte especializado a estudantes com deficiência.
2. Licenciaturas Interculturais e Universidade Federal Indígena: O fomento à criação de cursos específicos e da futura Universidade Federal Indígena busca criar ambientes acadêmicos mais adequados às necessidades e à cultura dos povos originários.
3. Programa de Bolsa Permanência: Oferece apoio financeiro a estudantes indígenas e quilombolas para custear moradia, alimentação e transporte.
Os investimentos em assistência estudantil cresceram significativamente, passando de R$ 1,4 bilhão em 2021 para R$ 2,7 bilhões em 2025. No ano passado, foram ofertadas 17,3 mil bolsas para estudantes indígenas e quilombolas — o dobro do registrado em 2022.
O Que Precisa Mudar?
Apesar dos avanços nas políticas públicas, os casos de Ynathari e Kanhu mostram que ainda há um longo caminho a percorrer. Algumas medidas urgentes incluem:
Capacitação de professores: É inadmissível que docentes façam comentários preconceituosos. As universidades precisam investir em formação continuada sobre inclusão e diversidade.
Infraestrutura de acessibilidade: Rampas, elevadores, banheiros adaptados, mesas adequadas e tecnologias assistivas devem ser prioridade, não exceção.
Monitorias efetivas: A promessa de um monitor que “nunca chegou” revela falhas graves na execução das políticas de acessibilidade.
Melhoria na coleta de dados: É impossível criar políticas públicas eficazes sem conhecer a real dimensão do problema.
Sensibilidade cultural: As políticas de inclusão precisam considerar as especificidades culturais dos povos indígenas.
A Importância da Representatividade
Quando Ynathari diz “é importante mostrar que nós existimos”, ela toca em um ponto fundamental. A invisibilidade dos estudantes indígenas com deficiência perpetua sua exclusão. Cada história contada, cada voz ouvida, contribui para a construção de uma universidade verdadeiramente inclusiva.
A presença desses estudantes nas universidades não beneficia apenas a eles próprios. Toda a comunidade acadêmica ganha com a diversidade de perspectivas, conhecimentos e experiências que eles trazem.
Conclusão: Um Sonho que Não Pode Morrer
A história de Kanhu, que mesmo após tantos obstáculos afirma “vou continuar tentando”, é um testemunho de resiliência e determinação. Mas não deveria ser necessário tanto esforço individual para acessar um direito que é garantido pela Constituição.
As universidades brasileiras precisam fazer sua parte. Não basta abrir as portas por meio de cotas se não houver condições para que esses estudantes permaneçam e concluam seus cursos. A inclusão real vai além do acesso: exige permanência com dignidade.
Para os estudantes que estão se preparando para vestibulares e para o ENEM, esta é uma reflexão importante. A educação superior no Brasil ainda está em construção, e cada geração tem a oportunidade de contribuir para torná-la mais justa e inclusiva. Conhecer essas realidades é o primeiro passo para transformá-las.
Fonte: Folha de S. Paulo, 6 de março de 2026.
Julio Sousa
Empreendedor em educação há mais de 15 anos. Fundador dos sites Rumo ao ITA, Projeto Medicina e Projeto Redação. Já ajudou milhares de estudantes ingressarem no curso de Medicina em universidades públicas e privadas no Brasil.