Enem 2025 teve apenas 10 notas mil na redação, mostram microdados do Inep

Julio Sousa
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Os microdados do Enem 2025, divulgados pelo Inep na segunda-feira, 22 de junho de 2026, trouxeram um dado que chama muita atenção de estudantes, professores e famílias: apenas 10 participantes conseguiram nota mil na redação. Em um universo de mais de 4,8 milhões de inscritos, o número é muito baixo e reforça uma percepção que já vinha aparecendo nas edições mais recentes do exame, a de que a prova de redação permanece como um dos maiores filtros da seleção nacional.

O tema da redação foi “Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira”. Trata-se de um assunto socialmente relevante, atual e perfeitamente compatível com o perfil do exame, que costuma cobrar repertório sociocultural, capacidade argumentativa, leitura crítica da realidade e, principalmente, domínio técnico da estrutura dissertativo-argumentativa. Ainda assim, o total de textos com pontuação máxima ficou abaixo do registrado no ano anterior, quando 12 estudantes tiraram mil. Ou seja, o que já era um resultado raro ficou ainda mais raro.

Mais do que uma curiosidade estatística, esse dado tem impacto simbólico e prático. Simbólico, porque desmonta a ideia de que a redação do Enem pode ser vencida apenas com fórmulas decoradas. E prático, porque a nota da redação pesa muito em processos seletivos, programas como Sisu, Prouni e Fies, além de ser usada como critério de desempate em diferentes contextos. Em muitos cursos concorridos, especialmente na área da saúde, uma redação forte deixa de ser diferencial e passa a ser necessidade.

Segundo a reportagem do g1, entre os 10 alunos nota mil há estudantes da Bahia, do Rio Grande do Sul, do Ceará, do Rio de Janeiro, de Pernambuco e de Alagoas. A distribuição geográfica mostra que o alto desempenho não pertence a uma única região do país. Ao mesmo tempo, o total reduzido revela que alcançar o topo exige uma combinação difícil de repertório consistente, leitura de tema precisa, boa seleção de argumentos, domínio da norma culta e proposta de intervenção muito bem construída.

Esse cenário também ajuda a explicar por que tantos candidatos saem da prova com a sensação de que “foram bem”, mas recebem notas bem abaixo do esperado. No Enem, escrever bem não significa apenas produzir um texto correto ou bonito. O exame trabalha com cinco competências específicas, e o desempenho final depende do equilíbrio entre elas. Um candidato pode argumentar bem, mas perder pontos por falhas gramaticais. Outro pode dominar a norma padrão, mas escorregar na organização das ideias. Há ainda quem apresente uma boa discussão, porém formule uma proposta de intervenção vaga, incompleta ou pouco articulada com o problema apresentado.

O dado das 10 notas mil também reacende uma discussão importante sobre o nível de exigência da correção. Nos últimos anos, aumentou entre professores e estudantes a percepção de que a banca está mais rigorosa, especialmente na avaliação de repertório produtivo, progressão argumentativa e detalhamento da proposta de intervenção. Não basta mais citar autores, filmes ou leis de forma solta. É preciso integrar essas referências ao raciocínio do texto, mostrando de fato como elas ajudam a sustentar a tese defendida.

Outro ponto importante é que o tema de 2025 exigia maturidade argumentativa. Falar sobre envelhecimento na sociedade brasileira não significa apenas mencionar respeito aos idosos. Era necessário discutir a forma como o país enxerga a velhice, os impactos sociais e econômicos do aumento da população idosa, o etarismo, o acesso à saúde, a exclusão social e até o papel do poder público na promoção de dignidade. Em outras palavras, o candidato precisava sair do senso comum. Quem ficou preso a generalidades provavelmente teve dificuldade para alcançar faixas mais altas de pontuação.

Isso traz uma lição valiosa para quem está se preparando para o próximo Enem: treinar redação não é só escrever muito, é escrever com método. O estudante precisa aprender a interpretar o tema com precisão, delimitar um recorte, construir uma tese clara, escolher argumentos complementares e desenvolver cada parágrafo com progressão lógica. Além disso, deve dominar a estrutura da proposta de intervenção, que no modelo do Enem precisa apresentar agente, ação, meio, finalidade e, quando possível, detalhamento. Essa engenharia do texto faz diferença real na nota.

Há também um recado para as escolas e cursinhos. O número tão baixo de notas máximas sugere que ainda existe distância entre o ensino tradicional de produção textual e o tipo de escrita cobrado pelo exame. Muitos alunos passam anos fazendo resumos, respondendo questões objetivas e estudando conteúdo, mas sem um treinamento robusto de argumentação. Quando chegam ao Enem, descobrem que precisam articular repertório, criticidade e técnica em pouco tempo. Não é surpresa, portanto, que a redação continue sendo um gargalo.

Para quem sonha com medicina, a notícia é ainda mais relevante. Em cursos muito disputados, cada ponto conta. Uma redação acima de 900 pode impulsionar a nota final de forma decisiva, enquanto um desempenho mediano pode comprometer uma candidatura que foi boa nas objetivas. Por isso, acompanhar dados como esse não deve servir para desanimar, e sim para ajustar a estratégia. O recado do Enem é claro: improviso não basta. A preparação precisa ser constante, crítica e direcionada.

Também vale observar que a raridade da nota mil não significa impossibilidade. Os próprios textos destacados pela imprensa mostram características recorrentes entre os melhores desempenhos: repertório pertinente, boa articulação entre referências históricas e sociais, argumentação consistente e fechamento propositivo. Em vez de buscar frases prontas ou modelos engessados, o candidato que quer crescer na redação deve estudar bons textos, entender por que eles funcionam e construir uma voz argumentativa própria, sem perder o formato exigido pela banca.

No curto prazo, a divulgação dos microdados deve alimentar análises pedagógicas, revisões de estratégia em cursinhos e debates sobre a correção. No médio prazo, tende a reforçar uma mudança que já está em curso na preparação dos candidatos: menos foco em decorar repertórios soltos e mais atenção à qualidade da construção argumentativa. Quem compreender isso antes sai na frente.

Em resumo, o dado divulgado pelo Inep é duro, mas extremamente instrutivo. Apenas 10 redações nota mil em mais de 4,8 milhões de inscritos mostram que a excelência na redação do Enem está cada vez mais associada a preparo sofisticado, leitura de mundo e domínio técnico real. Para o estudante, a conclusão é objetiva: não dá para tratar a redação como complemento. Ela é parte central da prova e, em muitos casos, pode ser exatamente o que separa a aprovação do quase.

Fonte: g1 Educação, com base nos microdados do Inep divulgados em 22 de junho de 2026.

Julio Sousa

Empreendedor em educação há mais de 15 anos. Fundador dos sites Rumo ao ITA, Projeto Medicina e Projeto Redação. Já ajudou milhares de estudantes ingressarem no curso de Medicina em universidades públicas e privadas no Brasil.