Como Superar as Dificuldades em Matemática e Ir Bem no Vestibular
A matemática é frequentemente apontada como uma das maiores dificuldades enfrentadas por estudantes que se preparam para o ENEM e vestibulares. Frases como “odeio essa matéria”, “sou de humanas” ou “não consigo aprender nada” ecoam em salas de aula e cursinhos por todo o Brasil. No entanto, especialistas garantem que essa dificuldade não é uma sentença definitiva e que, com as estratégias corretas, qualquer estudante pode melhorar significativamente seu desempenho na disciplina.
Os números comprovam o desafio. De acordo com dados do INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais), a nota média dos participantes do ENEM 2024 em matemática caiu de 535 para 529 pontos em comparação à edição anterior. Essa queda reflete um problema estrutural que começa muito antes do terceiro ano do ensino médio e que foi agravado pela pandemia de COVID-19.
O Índice de Inclusão Educacional, desenvolvido pela organização Metas Sociais a pedido do Instituto Natura, revelou dados alarmantes: a taxa nacional de alunos que concluíram o ensino médio com aprendizado básico em matemática foi de apenas 21,4% em 2023 — uma piora significativa em relação aos 25,5% registrados em 2019. Na prática, isso significa que 8 em cada 10 estudantes não sabem resolver problemas com porcentagens ou lidar com situações numéricas no dia a dia.
Por Que a Matemática É Tão Difícil Para Muitos Estudantes?
Segundo Jaqueline Mesquita, presidente da Sociedade Brasileira de Matemática, a dificuldade em relação à área está fortemente ligada à falta de conexão com o mundo real. “De fato, existe o estereótipo forte de que é muito difícil, é muito abstrato, mas isso se deve muito à forma como a matemática é ensinada nas escolas”, explica a especialista.
A matemática acaba sendo ensinada de forma desconexa da realidade, como se não tivesse ligação com o cotidiano. Muitos estudantes não conseguem entender onde vão usar a matemática em suas vidas, o que gera desinteresse e dificuldade de aprendizado. Quando o aluno não vê sentido prático no que está estudando, a motivação para aprender naturalmente diminui.
Outro fator crucial é que, na matemática, as dificuldades não resolvidas nas etapas iniciais tendem a se acumular ao longo do processo de aprendizagem. Um estudante que não domina bem as operações básicas terá dificuldades com álgebra, que por sua vez afetará seu desempenho em funções e assim por diante. É como construir um prédio sobre uma fundação instável.
O Impacto da Pandemia no Aprendizado de Matemática
De acordo com Monique Covi, professora de matemática do Cursinho da Poli, os desafios foram significativamente agravados nos últimos anos. Os atuais vestibulandos carregam os impactos diretos do isolamento social causado pela COVID-19. “Os alunos de seis anos atrás, de 2020, estavam lá no sétimo, oitavo ano, que é um ano de conhecimentos básicos como frações, números racionais. Com a pandemia, eles ficaram com essa defasagem”, explica a professora.
Essa lacuna no aprendizado de conceitos fundamentais criou uma geração de estudantes que chegam ao ensino médio sem a base necessária para acompanhar conteúdos mais avançados. A transição abrupta para o ensino remoto durante a pandemia prejudicou especialmente a matemática, uma disciplina que tradicionalmente se beneficia da interação presencial e da resolução de exercícios em tempo real com o professor.
As Consequências Emocionais das Dificuldades em Matemática
Mariana Chaves, psicopedagoga e especialista em educação na rede Kumon, destaca que a experiência de tentar resolver um problema e errar repetidas vezes gera consequências emocionais profundas. “Matemática é muito cruel nesse sentido, porque, se o resultado está errado, está errado. Não tem ali a resposta dissertativa que as disciplinas humanas têm. O estudante vai criando essa experiência de fracasso e é isso que vai causando desmotivação, ansiedade e insegurança”, explica.
Esse acúmulo de frustrações alimenta o que a psicopedagoga classifica como um grande mito: o de que matemática é naturalmente difícil. “Todo mundo fala que matemática é difícil, e isso vai se construindo e é um grande estigma. Mas a verdade é que matemática não é difícil, é um pensamento abstrato que precisamos tornar realidade”, afirma Mariana.
Quando o estudante internaliza a crença de que não é capaz de aprender matemática, cria-se uma profecia autorrealizável. Ele evita estudar a disciplina, dedica menos tempo a ela e, consequentemente, tem um desempenho pior — o que apenas reforça sua crença inicial. Quebrar esse ciclo é fundamental para a melhora no aprendizado.
O Problema da Interpretação de Textos na Matemática
Além dos cálculos em si, uma das maiores dificuldades em matemática está na interpretação dos enunciados. Especialistas afirmam que a leitura e a compreensão de texto estão entre as principais dificuldades dos vestibulandos nas provas de exatas. Muitos estudantes sabem fazer os cálculos, mas não conseguem identificar qual operação matemática o problema está pedindo.
A professora Monique Covi enfatiza que é preciso mudar a forma de enxergar e entender a disciplina. “A matemática é uma linguagem. Ela tem termos próprios. Os símbolos dela, aqui, na China, ou qualquer lugar do mundo, são os mesmos. Têm uma linguagem, uma maneira de comunicar. O estudante precisa aprender a ler os símbolos, as fórmulas e a interpretar”, explica.
Para melhorar a interpretação das questões, Mariana recomenda não se deixar levar pela história contada no enunciado. “Se a questão está falando de fazenda, depois você pode pegar o mesmo exercício falando de aviões. Os alunos acabam se perdendo no contexto do problema. A técnica é isolar as informações relevantes e focar no conteúdo matemático”, aconselha a psicopedagoga.
Sete Dicas Práticas Para Superar as Dificuldades em Matemática
1. Dê um passo atrás
Se há dificuldade com equações de 2º grau, por exemplo, o erro pode estar em operações básicas, como soma ou multiplicação. Nesses casos, vale revisar esses fundamentos básicos. Retomar conteúdos anteriores ajuda a recuperar a confiança e ganhar segurança antes de avançar para outros temas. Não tenha vergonha de voltar ao básico — isso é inteligência, não fraqueza.
2. Crie um diário de erros
“A análise do erro faz parte do processo, ela é o diferencial até do aluno aprovado”, explica a professora Monique Covi. “Porque esse aluno identifica onde ele errou, entende porque ele errou e aprende o método correto”. Anote seus erros mais frequentes, entenda onde você se confunde e revise esses pontos regularmente.
3. Matemática é uma linguagem; aprenda a lê-la
Não basta saber calcular. Os símbolos e fórmulas têm significado próprio, e entendê-los é o primeiro passo. Treinar a leitura matemática muda completamente o desempenho na hora da prova. Dedique tempo para compreender o que cada símbolo representa e como as fórmulas são construídas.
4. Cuidado com a “armadilha” do enunciado
A questão fala de fazenda, aviões ou pizzas? Não importa. Concentre-se nas informações relevantes e ignore o “enfeite” da história. O conteúdo matemático é sempre o que vale. Grife os dados numéricos, identifique o que está sendo pedido e monte a equação a partir dessas informações essenciais.
5. Entenda a característica de cada vestibular
Analisar e revisar questões de edições anteriores dos vestibulares e do ENEM ajuda a identificar o perfil das provas e a familiarizar o estudante com o estilo de cobrança dos conteúdos. Cada prova tem suas particularidades, e conhecê-las pode fazer a diferença no dia do exame.
6. Reconheça padrões e ganhe velocidade
Com a revisão constante, você começa a perceber quais conceitos aparecem mais nas provas e quais tipos de questões são mais frequentes. Isso torna a resolução mais rápida e segura no dia do vestibular. A prática leva à familiaridade, e a familiaridade reduz a ansiedade.
7. Talento não é o que separa quem vai bem de quem vai mal
A professora Covi ressalta que aprender matemática é parar de acreditar no dom e focar no trabalho diário. “O estudante que hoje está em dificuldade pode sim alcançar altas notas. A diferença entre quem consegue e quem não consegue não é o talento, é o método, é a constância, é a orientação adequada”, afirma.
O Caminho Para a Aprovação
A boa notícia é que a matemática não é um território inacessível. Com método, constância e orientação adequada, qualquer estudante pode melhorar significativamente seu desempenho. O primeiro passo é abandonar a crença de que “não sou bom em matemática” e adotar uma mentalidade de crescimento, entendendo que habilidades podem ser desenvolvidas com prática e dedicação.
A revisão constante de exercícios é uma ferramenta poderosa nesse processo. Ao revisar, o estudante consegue perceber em quais etapas costuma errar, seja na interpretação do enunciado ou nos cálculos. Com isso, é possível trabalhar especificamente nos pontos fracos e transformá-los em fortalezas.
E quem sabe, ao superar a dificuldade, o vestibulando descubra algo novo e atraente na área. Como conclui Jaqueline Mesquita: “Quando nós conseguimos enxergar a beleza da matemática, onde ela está, em todos os lugares, e o quanto é bom estar ali tentando desvendar um certo mistério com problemas de matemática, pode se tornar até uma grande paixão”.
Se você está se preparando para o ENEM ou vestibulares e enfrenta dificuldades com matemática, não desanime. Aplique as dicas apresentadas neste artigo, busque ajuda quando necessário e lembre-se: com persistência e as estratégias certas, a aprovação está ao seu alcance.
Fonte: Folha de S.Paulo – Março de 2026
Julio Sousa
Empreendedor em educação há mais de 15 anos. Fundador dos sites Rumo ao ITA, Projeto Medicina e Projeto Redação. Já ajudou milhares de estudantes ingressarem no curso de Medicina em universidades públicas e privadas no Brasil.