Universidades Eliminam Segunda Fase dos Vestibulares: Entenda o Que Muda Para os Candidatos
Uma mudança significativa está transformando o formato dos vestibulares em universidades públicas brasileiras. Instituições como a UFPR (Universidade Federal do Paraná) e a UFU (Universidade Federal de Uberlândia) anunciaram a eliminação da segunda fase de seus processos seletivos, concentrando toda a avaliação em um único dia de prova. A decisão se baseia em estudos internos que demonstram impacto mínimo da etapa adicional no resultado final da seleção.
O Que Está Mudando nos Vestibulares?
Ao longo das últimas décadas, os vestibulares das principais universidades públicas brasileiras passaram por diversas transformações. Processos que já chegaram a durar mais de três dias foram gradualmente encurtados, com a separação entre provas objetivas e discursivas em datas distintas. Agora, uma nova tendência ganha força: a concentração de toda a seleção em poucas horas, com menos questões e menor peso para as etapas dissertativas.
Na UFU, o vestibular a partir de 2026 será aplicado em um único dia, contendo 65 questões objetivas e uma redação. O modelo anterior previa duas fases, com maior número de provas discursivas. Já na UFPR, o processo que antes incluía até três dias de prova também passa a ser realizado em um único dia, com cinco horas e meia de duração.
Por Que as Universidades Estão Fazendo Essa Mudança?
A decisão de eliminar a segunda fase não foi tomada de forma arbitrária. Ambas as universidades realizaram simulações internas detalhadas para avaliar o impacto real dessa etapa no resultado final do vestibular. Os números surpreenderam até mesmo os gestores.
Segundo o pró-reitor de graduação da UFU, Waldenor Moraes, as simulações mostraram que se o vestibular fosse aplicado apenas com a primeira fase, o resultado mudaria basicamente a ordem de classificação, mas não a composição dos aprovados. “Cerca de 80% dos candidatos manteriam a mesma posição, com variações de 15% a 20% na lista final”, explicou.
Na UFPR, o cenário é semelhante. De acordo com Marco Randi, diretor do Núcleo de Concursos, as simulações indicaram que no máximo 10% das vagas seriam trocadas de mãos com a eliminação da segunda fase. “Altera pouco o perfil dos aprovados”, afirmou o diretor.
O Problema do Abandono na Segunda Fase
Outro fator que pesou na decisão foi o alto índice de abandono por parte dos candidatos ao longo do processo seletivo. As universidades identificaram taxas significativas de ausência na segunda fase, além de provas discursivas deixadas completamente em branco.
Esse fenômeno comprometia a eficácia da seleção e dificultava o preenchimento das vagas ofertadas. Candidatos que haviam obtido bom desempenho na primeira fase simplesmente não compareciam à etapa seguinte, seja por dificuldades logísticas, financeiras ou por terem sido aprovados em outras instituições.
Custos para os Candidatos: Uma Barreira de Acesso
A questão financeira emerge como um dos principais motivadores da mudança. Como a segunda fase era frequentemente concentrada na cidade-sede da universidade, estudantes de outras regiões precisavam arcar com despesas consideráveis de viagem, hospedagem e alimentação.
“Muitas vezes, a gente perdia esse jovem por uma questão socioeconômica”, relatou o pró-reitor da UFU. A situação criava uma barreira invisível de acesso, prejudicando especialmente candidatos de baixa renda e de cidades distantes.
A concentração da prova em um único dia reduz significativamente esses gastos e diminui conflitos de calendário com outros vestibulares. “Como universidade pública, buscamos um processo mais isonômico, especialmente para quem tem vulnerabilidade social e econômica”, afirmou Randi, da UFPR.
Como Ficam os Novos Vestibulares?
Na UFPR, o novo formato prevê uma prova de cinco horas e meia com 80 questões objetivas e duas questões de compreensão e produção de textos (CPT) — uma longa e uma curta. A avaliação de habilidades específicas será mantida apenas para o curso de música.
Para preservar a especificidade de cada curso, a universidade adotará pesos diferentes para as disciplinas na prova objetiva. Assim, candidatos a cursos de exatas terão maior valorização das questões de matemática, física e química, enquanto candidatos a cursos de humanidades terão maior peso em história, geografia e línguas.
A instituição também projeta redução nos custos operacionais, com menor necessidade de aplicadores e corretores, o que pode resultar em queda na taxa de inscrição — um benefício adicional para os candidatos.
Outras Universidades Também Estão Mudando
A tendência de simplificação dos vestibulares não se restringe à UFPR e UFU. Outras grandes universidades já vinham fazendo ajustes no formato de suas provas.
Em 2025, a Unicamp reduziu o número de questões da segunda fase de seu vestibular. A USP também anunciou mudanças para o vestibular aplicado em 2026, com diminuição no total de questões. As instituições justificam as alterações como forma de dar mais tempo para a elaboração das respostas e reduzir a pressão sobre os candidatos.
À época dos anúncios, o diretor da Comvest, responsável pelo vestibular da Unicamp, José Alves, observou que houve queda no rendimento dos candidatos desde a pandemia de COVID-19, indicando que os estudantes chegam menos preparados para enfrentar provas extensas e exigentes.
O Novo Perfil do Vestibulando Pós-Pandemia
As mudanças nos vestibulares também refletem uma transformação no perfil dos candidatos. Segundo os gestores universitários, os estudantes que cursaram o ensino médio de forma remota durante a pandemia chegam à universidade com lacunas em disciplinas básicas como física, química e matemática.
Além das deficiências acadêmicas, há questões comportamentais preocupantes. “O jovem chega muitas vezes desatento, com ansiedade e dificuldade de manter o foco durante o exame”, relatou Moraes, da UFU. A dificuldade de concentração e a menor resistência a provas longas são características cada vez mais comuns entre os vestibulandos.
Diante desse cenário, algumas universidades passaram a adotar estratégias de acolhimento acadêmico para ajudar os calouros a se organizarem, aprenderem a ler textos científicos e se adaptarem ao ambiente universitário.
Uma Reconfiguração Mais Ampla da Educação
Para além das questões práticas, Randi aponta mudanças mais profundas no papel da educação na sociedade contemporânea. Segundo ele, há uma reconfiguração nas sociedades ocidentais em que a educação formal perde centralidade. “Há um histórico internacional de desestímulo ao ensino superior”, afirmou.
Essa percepção dialoga com debates mais amplos sobre o valor do diploma universitário no mercado de trabalho e as alternativas de formação profissional que vêm ganhando espaço, como cursos técnicos e certificações específicas.
O Que Isso Significa Para Quem Vai Prestar Vestibular?
Para os estudantes que estão se preparando para os vestibulares de 2026 e anos seguintes, as mudanças trazem implicações práticas importantes:
- Menos dias de prova: A concentração em um único dia reduz o desgaste físico e emocional, mas aumenta a intensidade da maratona de questões.
- Maior peso das questões objetivas: Com a redução ou eliminação das provas discursivas específicas, o desempenho nas questões de múltipla escolha ganha ainda mais importância.
- Redução de custos: Candidatos de outras cidades economizarão com hospedagem e deslocamento.
- Menos conflitos de calendário: Com provas em um único dia, fica mais fácil conciliar diferentes vestibulares.
- Manutenção da redação: A produção de texto continua sendo avaliada, exigindo preparo específico para essa competência.
Como Se Preparar Para Esse Novo Formato?
A mudança no formato dos vestibulares exige adaptações na estratégia de preparação. Algumas recomendações para os candidatos:
1. Foque em resistência: Treinar para manter a concentração durante cinco ou seis horas seguidas de prova é fundamental. Faça simulados completos respeitando o tempo total.
2. Domine as questões objetivas: Com maior peso nesse tipo de questão, é essencial desenvolver técnicas de resolução rápida e eliminação de alternativas.
3. Não negligencie a redação: Mesmo com provas mais curtas, a produção de texto continua sendo diferencial. Pratique semanalmente.
4. Gerencie o tempo: Com tudo concentrado em um único dia, a administração do tempo durante a prova torna-se crucial. Saiba quando pular questões difíceis e voltar depois.
5. Cuide da saúde física e mental: Ansiedade e dificuldade de concentração são desafios reais. Técnicas de respiração, sono adequado e atividade física ajudam no desempenho.
Conclusão
A eliminação da segunda fase dos vestibulares representa uma mudança estrutural na forma como as universidades públicas brasileiras selecionam seus alunos. Baseada em dados que mostram impacto mínimo no perfil dos aprovados e motivada por questões de equidade e custos, a decisão reflete também uma adaptação ao novo perfil dos estudantes pós-pandemia.
Para os vestibulandos, o momento exige atenção às mudanças específicas de cada instituição de interesse e adaptação nas estratégias de estudo. O que permanece inalterado é a importância de uma preparação sólida, consistente e abrangente — independentemente do formato da prova.
Fonte: Folha de S.Paulo — “Universidades eliminam segunda fase dos vestibulares após impacto mínimo na seleção”. 29 de março de 2026.
Julio Sousa
Empreendedor em educação há mais de 15 anos. Fundador dos sites Rumo ao ITA, Projeto Medicina e Projeto Redação. Já ajudou milhares de estudantes ingressarem no curso de Medicina em universidades públicas e privadas no Brasil.