Estudo revela que adolescentes passam um terço do horário escolar no celular e têm prejuízos na atenção
Novo estudo revela impacto do uso de celulares durante as aulas
Uma pesquisa recente do Departamento de Psicologia e Neurociência da Universidade da Carolina do Norte trouxe dados alarmantes sobre o comportamento dos adolescentes em sala de aula. O estudo, divulgado nesta semana, revelou que estudantes passam quase um terço do horário letivo conectados aos seus smartphones, um comportamento que está diretamente relacionado à diminuição da capacidade de atenção e a um controle de impulsos mais fraco entre os jovens.
Os resultados da pesquisa são especialmente relevantes para estudantes brasileiros que se preparam para o ENEM e vestibulares, pois demonstram como o uso indiscriminado do celular pode prejudicar diretamente o aprendizado e o desempenho acadêmico. A concentração é uma habilidade fundamental para quem deseja obter boas notas em provas extensas e complexas como as dos principais processos seletivos do país.
Os números que preocupam especialistas
A pesquisa acompanhou jovens de 11 a 18 anos do sudoeste dos Estados Unidos e descobriu dados impressionantes sobre o uso do celular durante o período escolar. Em média, os adolescentes passam 2,22 horas do período escolar conectados ao smartphone. Para colocar em perspectiva, isso representa aproximadamente um terço de todo o tempo que deveriam estar dedicados exclusivamente ao aprendizado.
Outro dado relevante é a frequência com que os estudantes checam seus aparelhos: em média, 64 vezes durante o horário das aulas. Isso significa que, a cada poucos minutos, o aluno interrompe sua atenção para olhar notificações, mensagens ou simplesmente verificar as redes sociais. Mais de 70% do tempo de tela é dedicado exclusivamente a redes sociais e aplicativos de entretenimento, segundo os pesquisadores.
Uma diferença significativa foi observada entre as faixas etárias. Alunos mais velhos, entre 15 e 18 anos, passam cerca de 23 minutos por hora no celular, enquanto os mais novos, entre 11 e 14 anos, passam 11 minutos. O dado mais preocupante, no entanto, é que nenhum dos participantes do estudo conseguiu ficar totalmente sem usar o celular durante o período escolar. A dependência digital parece ser universal entre os jovens acompanhados.
O perigo das “checadinhas” constantes
Um dos achados mais importantes do estudo é que o ato de checar o celular repetidamente é mais prejudicial ao controle cognitivo do que o tempo total que o aluno passa olhando para a tela. Essas interrupções frequentes causam o que os cientistas chamam de “fragmentação da atenção”, dificultando o foco profundo necessário para a aprendizagem efetiva.
“Nossas descobertas mostram que a verificação frequente do telefone pode minar as próprias competências de que os alunos precisam para ter sucesso na sala de aula”, explicou Eva Telzer, professora de psicologia e neurociência e autora principal do trabalho. A pesquisadora destaca que o impacto foi medido através de testes que avaliaram a capacidade do jovem de resistir a estímulos e manter o foco em tarefas específicas.
Kaitlyn Burnell, professora assistente de pesquisa e coautora do estudo, também expressou sua surpresa com os resultados: “O que mais nos surpreendeu foi a enorme quantidade de tempo que os adolescentes passam nos seus celulares durante a escola”. A pesquisadora reforça que as redes sociais oferecem recompensas imediatas que competem com o esforço exigido pelo estudo, criando um desafio constante para o cérebro adolescente, que ainda está desenvolvendo sistemas de autorregulação.
O que isso significa para quem estuda para vestibulares
Para estudantes que se preparam para o ENEM, vestibulares de medicina e outros processos seletivos concorridos, os achados da pesquisa servem como um alerta importante. A capacidade de concentração prolongada é uma das habilidades mais importantes para quem deseja ter bom desempenho em provas que exigem raciocínio complexo e atenção sustentada por várias horas.
A fragmentação da atenção causada pelo uso constante do celular pode ter impactos de longo prazo no desenvolvimento cognitivo dos estudantes. Quando o cérebro é constantemente interrompido por notificações e estímulos digitais, ele perde a capacidade de se concentrar profundamente em uma única tarefa, algo essencial para o aprendizado de conteúdos complexos como os exigidos nas provas de ciências da natureza, matemática e redação.
Além disso, o estudo indica que as redes sociais criam um ciclo de recompensa imediata que compete diretamente com a satisfação mais demorada do aprendizado. Para um estudante, é muito mais fácil obter prazer instantâneo rolando o feed do Instagram do que resolvendo uma lista de exercícios de química orgânica. Essa competição desigual pode fazer com que o aluno procrastine constantemente e nunca desenvolva a disciplina necessária para estudos intensivos.
A experiência brasileira com a proibição de celulares
No Brasil, o uso de celulares nas escolas foi proibido por meio de uma lei sancionada em janeiro de 2025. A proibição está em prática há um ano e é válida durante aulas, recreios e intervalos. A implementação da medida trouxe desafios iniciais, mas também resultados positivos que corroboram os achados do estudo americano.
Diversas instituições brasileiras relataram um período inicial de adaptação desafiador. Alunos demonstraram o que muitos professores descreveram como “crises de abstinência”, com relatos de irritação, choro e até comportamentos agressivos. Esses sintomas foram especialmente intensos nos primeiros dias e semanas após a implementação da proibição, evidenciando o nível de dependência que os jovens desenvolveram em relação aos seus dispositivos.
Durante a implementação, escolas adotaram medidas práticas para fiscalização, como bolsinhas para guardar aparelhos, caixas coletivas ou armários trancados, que são entregues aos funcionários no início do dia e devolvidos ao final. Em São Paulo e Rio de Janeiro, 62% das unidades conseguiram plena adesão após um semestre, embora 38% ainda enfrentassem resistências.
Benefícios observados após a restrição
Com o tempo, os benefícios da proibição começaram a aparecer de forma consistente. Professores e alunos notaram maior concentração nas aulas, melhora significativa nas notas e redução de distrações como plágio ou chats excessivos durante as atividades escolares. Esses resultados reforçam a importância de políticas que limitem o acesso aos celulares durante o período de aprendizado.
Estudantes como Gustavo Campos, de Campinas, no interior de São Paulo, relataram notas mais altas e uma reflexão mais profunda sobre hábitos prejudiciais após seis meses da implementação da medida. Muitos jovens reconhecem que o celular representava uma distração constante e que sua ausência permitiu um melhor aproveitamento das aulas.
A interação social também ganhou força com a restrição. Jovens passaram a fazer novas amizades cara a cara, brincar mais durante os intervalos e estudar em grupo, trocando telas por conversas no recreio e maior participação em sala. Coordenadores pedagógicos destacam que o ambiente escolar ficou mais acolhedor, com alunos olhando para colegas e para a lousa em vez de ficarem hipnotizados por seus celulares.
Desafios que ainda persistem
Apesar dos avanços significativos, desafios persistem em algumas turmas. Pesquisas indicam que cerca de um em cada seis estudantes admite fazer uso escondido do celular, alegando motivos como contato familiar ou necessidade de acessar redes sociais. A fiscalização constante e a conscientização sobre os malefícios do uso excessivo continuam sendo necessárias.
Os pesquisadores americanos defendem que as escolas adotem políticas que limitem o acesso a plataformas altamente estimulantes durante o tempo de instrução. No entanto, o estudo ressalta que o simples banimento pode não ser suficiente para resolver o impacto profundo que esses aparelhos têm no bem-estar cognitivo e social dos jovens. É necessário um trabalho complementar de educação digital.
As conclusões sugerem a necessidade de programas de alfabetização digital que ajudem os alunos a gerenciar o uso da tecnologia de forma mais intencional. “Políticas que restrinjam o acesso a plataformas altamente reforçadoras, incluindo redes sociais e aplicativos de entretenimento, durante o tempo de instrução podem ajudar a proteger a atenção e o envolvimento acadêmico dos alunos”, conclui a professora Eva Telzer.
Dicas para estudantes que querem melhorar a concentração
Com base nos achados da pesquisa e nas experiências brasileiras, especialistas recomendam algumas estratégias para estudantes que desejam melhorar sua capacidade de concentração e, consequentemente, seu desempenho nos estudos para vestibulares e ENEM.
A primeira dica é estabelecer períodos livres de celular durante os estudos. Utilize aplicativos de bloqueio ou simplesmente deixe o aparelho em outro cômodo durante as sessões de estudo. A simples presença do celular, mesmo desligado, pode ser uma distração. Estudos mostram que a tentação de checá-lo consome energia mental que poderia ser direcionada ao aprendizado.
Outra recomendação é a técnica Pomodoro: estudar por períodos de 25 a 50 minutos seguidos de pausas curtas. Durante o período de estudo, o celular deve estar completamente fora de alcance. As pausas podem incluir uma rápida checagem, mas é importante estabelecer limites claros para não transformar 5 minutos em 30.
Por fim, é fundamental que os estudantes reflitam sobre seu próprio uso de tecnologia e reconheçam os padrões que podem estar prejudicando seu desempenho. A autoconsciência é o primeiro passo para a mudança de comportamento. Pergunte-se: quantas vezes você checa o celular durante uma hora de estudo? O que você poderia ter aprendido se esse tempo fosse dedicado integralmente ao conteúdo?
Conclusão
O estudo da Universidade da Carolina do Norte reforça o que muitos educadores e pais já suspeitavam: o uso excessivo de celulares durante o período escolar tem impactos negativos significativos na capacidade de atenção e no aprendizado dos estudantes. Para quem se prepara para vestibulares e ENEM, essas descobertas são um alerta importante sobre a necessidade de desenvolver hábitos de estudo mais saudáveis e menos dependentes da tecnologia.
A experiência brasileira com a proibição de celulares nas escolas mostra que, apesar dos desafios iniciais, os benefícios de longo prazo podem ser significativos. Maior concentração, melhores notas e uma interação social mais rica são resultados que justificam o esforço de adaptação. Para os estudantes, a mensagem é clara: controlar o uso do celular não é apenas uma questão de disciplina, mas um investimento direto no próprio futuro acadêmico.
Julio Sousa
Empreendedor em educação há mais de 15 anos. Fundador dos sites Rumo ao ITA, Projeto Medicina e Projeto Redação. Já ajudou milhares de estudantes ingressarem no curso de Medicina em universidades públicas e privadas no Brasil.