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Depoimento de Estudando em casa, ex aluna de Enfermagem, passa para Medicina

Estudando em casa, ex aluna de Enfermagem, passa para Medicina

Meu nome é Karina, tenho 23 anos. Fui aprovada no curso de medicina em duas Universidades públicas: Universidade Federal do Paraná (UFPR) e Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE). Consegui as duas aprovações estudando em sozinha, em casa, e irei contar um pouco da minha trajetória para os que, assim como eu, não se veem em outra profissão a não ser a medicina.

Com 15 anos eu estava no 1° ano do ensino médio em uma escola pública e já sabia que queria ser médica. Então comecei a planejar o que iria fazer para alcançar meu objetivo. Minha família tinha poucas condições financeiras, porém nunca passamos necessidades. Sabia que minha mãe não teria condições de pagar um cursinho pra mim quando eu estivesse no terceirão, por isso planejei que iria começar a trabalhar de estagiária quando estivesse no segundo ano do ensino médio (com 16 anos) para juntar dinheiro para pagar o cursinho quando estivesse no terceiro ano, e poder apenas estudar.

E foi isso que fiz, com 16 anos comecei a trabalhar de estagiária na Universidade onde agora vou cursar medicina. Juntava quase todo o salário que recebia. Nesse mesmo ano fiz vestibular para medicina para ver como me sairia. Nem me lembro a colocação que fiquei, mas acho que fui uma das últimas. O resultado não poderia ser diferente, vim de uma formação escolar não muito boa e o curso de medicina sempre foi muito concorrido e com pessoas muito preparadas prestando.

Entrei no terceirão e como planejado, saí do serviço de estagiária. Fui até um cursinho da minha cidade, junto com a minha mãe, implorar por meia bolsa de estudos. Depois de muita conversa, eles aceitaram me dar a meia bolsa. Paguei a vista pelo ano todo de cursinho, com aquele dinheiro que tinha juntado estagiando. E comecei o cursinho, confesso que o choque de realidade foi muito grande para mim, pude ver a grande diferença do ensino privado para o público, aprendi muito nesse ano de cursinho, mais apesar disso, sabia que não tinha chance de passar em medicina ainda, eu via aquelas pessoas que estavam há 3 anos tentando e eu pensava que não queria ficar como eles “perdendo tempo” isso é o que achava na época, hoje minha visão é completamente diferente.

Então, tive a “grande ideia” de fazer biológicas (para ficar boa em biologia) e ir tentando vestibular para medicina ao longo do curso de ciências biológicas. Meu namorado conseguiu me convencer de não fazer isso, me falou sobre enfermagem, no começo resisti, disse que não, mas depois pensei e resolvi que iria fazer enfermagem, afinal, para mim, naquela época, medicina era um sonho distante e quase impossível.

Passei em 2° lugar em enfermagem, fiquei feliz, não era o que eu queria, mais aos poucos fui me conformando. Mesmo aparentemente conformada, o sonho da medicina, nunca saiu de dentro de mim. Eu gostava do curso de enfermagem, tinha coisas que não gostava, mais ia seguindo. Em 2013 eu já tinha cursado 3 anos de enfermagem (mais da metade do curso que é 5 anos). Em 2014 eu vi que um antigo colega meu de escola tinha passado em medicina, ele estava a um bom tempo tentando. Quando vi aquilo, balancei bastante, pensei nossa ele conseguiu e agora tanto faz o tempo que ele passou lutando para passar, mais sim que passou e que agora ia fazer o que gosta, pro resto da vida, e isso que realmente importava. Comecei a procurar vídeos no youtube sobre medicina e me deparei com o vídeo mais importante e que fez toda a diferença, me deu coragem para eu abandonar a enfermagem e lutar pelo meu sonho. O vídeo é “Atalhos para Medicina” do Rafael Freitas – atual médico, formado pela UFPR e que tem um canal no youtube para ajudar os vestibulandos de medicina. Confesso que assisti a esse vídeo em lágrimas e DECIDI, iria atrás do meu sonho, o mais rápido possível. Falei com a minha mãe, chorei bastante, pedi se ela me apoiaria na minha decisão, se ela não ficaria decepcionada comigo por eu largar a faculdade, já na reta final…

Minha mãe me deu todo o apoio possível e disse que eu poderia ficar tentando quantos anos fossem necessários, porque eu deveria fazer o que realmente eu queria. Fui 2 dias no 4° ano de enfermagem, já não me sentia mais pertencente aquele curso, aquela turma, minha cabeça só pensava em uma coisa: estudar para o vestibular. Parei o curso e na outra semana já estava indo fazer aula de química. O resto das matérias estudava em casa, sozinha. Não tinha condições para pagar um cursinho, no começo eu fiquei bem receosa, pensando será que eu vou conseguir estudando assim? Parecia que eu estava em um barco sem vela no meio do oceano, remando, tentando encontrar a terra firme, me senti muito perdida, busquei na internet depoimentos de pessoas que estudaram sozinhas e conseguiram passar, durante o ano todo eu lia esses depoimentos e isso me dava muita força de vontade para continuar.

A minha rotina era pesada, levantava de manhã cedo, tinha cronograma, tudo certinho. Comprei alguns poucos livros, assistia vídeo aulas, a maioria de graça, só biologia e química eram pagas, fazia resumos (em 2 anos de estudo, fiz 5 cadernos de resumos), eles me faziam sentir segura, pois tudo o que aprendia estava registrado lá. Fazia muitoooos exercícios. Estudava todo dia, no mínimo, 10 horas por dia, na verdade, estudava o dia inteiro, só não estudava quando estava comendo ou no banheiro, ou quando estava com meu namorado, que, aliás, sempre me ajudou muito, quando estava com ele, eu conseguia me distrair e esquecer um pouco do vestibular.

Veio o final do ano, fiz só o Enem e vestibular da UNIOESTE. Fiz as provas do vestibular e somando meus pontos, vi que tinha chance de passar, fiquei muito feliz, toda a minha família também, criamos expectativas, meu namorado planejou uma viagem de comemoração para um dia depois que saísse o resultado, e ai veio a pior notícia: não tinha passado. Fiquem em 46° dos cotistas, faltou 5 questões para eu passar e com a pontuação que tinha feito, passaria no vestibular anterior em 7° lugar, no entanto, as notas subiram muito naquele ano e eu não consegui.

Já estava tudo pronto para a viagem, não podíamos voltar atrás e fomos. No entanto, não consegui aproveitar como deveria, todos dos dias eu chorava quando lembrava, é uma dor muito grande, muito mesmo, nuca irei esquecer do que senti, mas mesmo assim, pelo menos aquele vestibular me provou que eu estava perto…. muito perto da minha aprovação. Decidi que ergueria a cabeça e continuaria a estudar, até porque, se não fosse médica, outra profissão eu não teria, com a nota que tirei no vestibular passaria em todos os outros cursos da UNIOESTE, inclusive em Engenharia civil, o 2° mais concorrido, mas eu só enxergava medicina, não voltaria para enfermagem, depois que agente toma a decisão, não tem mais volta, ou é aquilo, ou nada mais. Ahh e eu consegui bolsa 100% pelo Prouni para Arquitetura e urbanismo, isso meu deu ânimo para continuar minha luta.

E assim comecei 2015, com toda a garra do mundo e acreditando que aquele seria o meu ano. No meio do ano fiz vestibular de inverno na UEPG, fiquei em 34º. Fiz o enem e em agosto de 2015 fiquei sabendo que a UFPR abriria medicina em Toledo, cidade vizinha da minha. Fiquei muito entusiasmada, sabia que a prova era difícil e que na 2° fase tinha questões discursivas, mais eu tinha que tentar. Foi um presente pra mim ter aberto medicina em Toledo, sabia que aquela era a minha chance. Fiz vestibular, e em 8 de janeiro de 2016 vi o meu nome na lista de aprovados. 10 minutos antes do resultado eu tive um verdadeiro ataque de nervos, deitei no sofá, chorava muito, fiquei desesperada com a possibilidade de não ser aprovada mais uma vez, coitada da minha mãe, sofreu junto comigo durante toda a minha trajetória. Quando vi meu nome, desabei, eu e minha mãe nos abraçamos e chorávamos de soluçar. Foi uma alegria muito grande, todos da minha família ficaram muito felizes, devo muito a eles… a minha mãe, a minha única irmã e namorado… minha família, só eles que tenho.

Uma semana depois do resultado do vestibular da UFPR seria o vestibular da UNIOESTE, a universidade que eu sempre quis cursar medicina e que 6 anos atrás, tinha feito vestibular. Nessa uma semana, eu não conseguia mais estudar, até tentava, mais eu já não tinha forças mais, eu não aguentava mais ver aquele mesmo conteúdo que estudei durante os 2 anos. Fui fazer o vestibular da Unioeste tranquila, pois já tinha a aprovação na UFPR, já tinha feito até a matrícula lá.

Nos 20 dias de espera do resultado da Unioeste eu fiquei muito tranquila, sabia que tinha ido bem, mas quando lembrava da concorrência (137 por 1), pensava que não iria passar. E no dia 12 de fevereiro saiu o resultado e eu tranquilamente fui abrir o resultado para ver quem passou, mais não esperava que meu nome estaria lá. E ESTAVA, não pude conter a emoção, foi muito grande, eu realmente não acreditava no que estava vendo, tive que ler meu nome umas 3 vezes, gritei tanto que a minha vó até ficou com medo.. achou que eu estava louca. Esse dia com certeza foi o mais emocionante da minha vida, pois eu sempre sonhei em cursar medicina na UNIOESTE, na minha cidade. Passei em 7° lugar cotista. Agradeço muito a minha família que me apoiou e acreditou em mim, ao meu namorado que está comigo há quase 7 anos e vivenciou toda a minha trajetória, me incentivou, acreditou e principalmente me deu muito amor sempre.

Agora me lembro da 1° vez que fiz vestibular para medicina, tinha 16 anos e estava no 2° ano do ensino médio. 6 anos depois disso, eu consegui realizar meu sonho, vou estudar medicina na mesma instituição que cursei os 3 anos de enfermagem e se me perguntarem se eu faria tudo de novo eu respondo que SIIIIIIIIIIIIIIIIIM, com toda a certeza desse mundo, pois não tem nada melhor do que agente lutar e ver que conseguiu, que a luta teve um final feliz. Aprendi definitivamente que tudo tem a sua hora, e que a responsabilidade de realizar um sonho, só cabe a nós. Não espere nada de ninguém, só a nossa luta diária que fará chegarmos ao nosso objetivo. Aos que estão tentando: não desistam, é difícil? É, mas não impossível. Eu consegui, porque vc também não conseguiria? E eu consegui estudando sozinha, em casa, pois quem quer realmente, acha um jeito, quem não quer, acha uma desculpa. Abraços a todos…

Karina – acadêmica do 1º ano de Medicina UNIOESTE.

 

Sonhos pequenos cansam. Sonhos grandes motivam.

Sonhos pequenos não criam a vontade de levantar mais cedo da cama para fazer um sacrifício. Sonhos grandes dão energia para que a pessoa nem vá dormir.

Sonhos pequenos não contagiam ninguém. Sonhos grandes mobilizam o universo. Sonhos pequenos criam um monte de empecilhos. Sonhos grandes produzem milagres” (SHINYASHIKI).


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